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COMO ENSINAR SOBRE O CORPO HUMANO A CRIANÇAS AUTISTAS

Conhecer o corpo humano e suas peculiaridades é algo imprescindível para o desenvolvimento e segurança de crianças autistas.

Um assunto de grande importância para qualquer criança é o corpo humano e suas peculiaridades. Compreender as semelhanças e diferenças que existem entre as pessoas, as regras de convívio social e os limites relacionados ao próprio corpo é um conhecimento que proporciona desenvolvimento, bem-estar e segurança.

Quando se trata das crianças com autismo, trabalhar com atividades e instruções que desenvolvam esse conhecimento de forma educativa e saudável torna-se ainda mais importante. Identificar possíveis incômodos, agir conforme as regras sociais ou diferenciar o eu do outro nem sempre é uma tarefa simples. 

DIFERENÇA ENTRE O CORPO MASCULINO E O FEMININO

Para a criança autista, compreender algumas questões pode ser mais difícil e levar mais tempo. Uma dessas questões é reconhecer as diferenças entre o corpo do sexo feminino e masculino, bem como as modificações que ocorrem no corpo ao longo do desenvolvimento, especialmente durante a puberdade. É importante tratar esses assuntos com a criança da maneira mais natural possível.

Apresente as diferenças biológicas que há entre o corpo do sexo feminino e masculino, de maneira respeitosa e explícita, sempre utilizando recursos e vocabulário adequados à idade. É importante nomear as partes do corpo corretamente e também conversar sobre o funcionamento delas. Há diversos livros que tratam sobre esse tema de forma lúdica. Para isso, também podem ser utilizados materiais concretos, como bonecos.

Converse também sobre as modificações que ocorrem no corpo humano ao longo do desenvolvimento. É importante enfatizar o estágio da puberdade, onde as modificações se tornam aparentes e, algumas vezes, podem incomodar algumas crianças. Ajude a criança a se preparar e enfrentar a puberdade da forma mais natural possível, respeitando e acolhendo suas dúvidas, inquietações e necessidades. Para isso, podem ser utilizadas, por exemplo, fotos da família onde seja possível observar os pais e outros conhecidos nas diferentes fases da vida. Fale explicitamente sobre as modificações que podem ser observadas, como “Quando você ficar mais velho, também vai ter pelos no rosto igual ao papai”, ou “Você ainda vai crescer e ficará mais alta com o passar dos anos”. O uso de exemplos possibilitará o melhor entendimento da criança.

O QUE FAZER EM PARTICULAR, MAS NÃO EM PÚBLICO?

Compreender o que é privacidade e quais são as partes do corpo consideradas íntimas é essencial ao desenvolvimento das crianças. Dessa maneira, será possível diferenciar quais ações podem ou não ser realizadas em público. Para isso, é preciso indicar quais partes podem ser mostradas a outras pessoas e quais devem permanecer cobertas. Ensinar o conceito de estar vestido ou nu é uma boa opção. Isso pode ser feito por meio de uma conversa, por meio de livros e jogos (como aqueles em que são coladas roupas sobre o corpo de desenhos de crianças), ou com materiais concretos (como bonecos). Enfatizar essas ideias durante o banho também é uma alternativa, utilizando exemplos como “Quando você está tomando banho, tudo bem ficar nu, mas quando vamos sair do banho temos que nos enxugar o corpo e vestir nossas roupas para que ninguém veja nossas partes íntimas! Quais são elas? São as partes que somente a mamãe e o papai podem ver!”.

Também é válido ensinar sobre o local certo para fazer determinadas coisas, e o que que não devem ser feitas em público, por exemplo, local em que pode ser retirada a roupa para se trocar, local onde pode urinar. Oriente explicitamente com frases como: “Quando precisamos fazer nossas necessidades, devemos utilizar o banheiro. Antes de abaixar a calça, precisa fechar a porta e conferir se não há alguma pessoa olhando! Não pode ficar sem roupa ou fazer as necessidades na frente de ninguém!”. Para facilitar o entendimento, os responsáveis podem elaborar um quadro com imagens de situações que ocorrem no dia a dia, como lavar as mãos, urinar, tomar banho e escovar os dentes e deixá-lo visível para que essas ações sejam lembradas pela criança.

LIMITES PESSOAIS E CORPORAIS

Ao entender sobre privacidade e as partes íntimas do corpo, a tendência é que a criança tenha mais facilidade para compreender sobre os limites pessoais e corporais, que funcionam como regras de como as pessoas devem se comportar entre si. De forma mais clara, os limites são estabelecidos a partir de quem pode tocar no corpo da criança e onde pode tocar. 

A criança deve ser alertada desde cedo a evitar contato com estranhos, como também a identificar atitudes que não devem ser permitidas. Isso pode ser feito ensinando à criança que estranhos não podem tocar nas partes íntimas do seu corpo e exemplificando os momentos em que esses toques não apresentam risco para ela.

 Realize brincadeiras e jogos, se for preciso, para estimular ainda mais essa compreensão, que é tão necessária para a segurança da criança. Você pode apresentar desenhos para ela marcar quais são as partes que não podem ser tocadas por outras pessoas, pode brincar com bonecos, pode utilizar vídeos ilustrativos encontrados pela internet ou até livros que tratam sobre o assunto.

Não deixe também de orientar sobre o que a criança deve fazer caso alguém a toque em partes proibidas! Como ela deve reagir e a quem deve avisar. Trate o assunto com naturalidade, para que a criança sinta liberdade e segurança para informar um adulto responsável sobre o que ocorre com o corpo dela sempre que necessário.

Além disso, a criança precisa entender que, da mesma forma que as pessoas não podem tocar em suas partes íntimas, ele também não pode fazer isso com as outras. Para ajudar nessa visualização e compreensão, podem ser utilizadas as mesmas estratégias da abordagem anterior, montando um quadro de regras com as imagens ou desenhos das ações que podem ser permitidas e as ações que não podem ser permitidas.

Explique ainda que nem todo toque é ruim. Em algumas situações o toque pode ser bom e necessário, como quando a criança vai ao médico, momento em que pode ser que ele precise examinar o seu corpo mais detalhadamente, ou quando um colega da escola a abraça de modo amigável. 

Ensinar os limites pessoais para a criança com autismo será de grande valia para a preservação de sua segurança pessoal.

TOQUE INDESEJADO

Existem crianças autistas que não se sentem bem, ou pouco à vontade, com o contato físico, como um abraço. Essa característica é algo comum em crianças com TEA, porém, é importante ensiná-las a diferenciar um toque “ruim” (quando ultrapassa os limites pessoais) de um toque indesejado. 

Um exemplo disso é quando algum parente faz uma visita e tenta abraçar a criança, mas ela não gosta de contato físico. Isso constitui um toque indesejado. Nesse cenário, é interessante ensinar à criança maneiras educadas de responder a determinada situação simplesmente dizendo “não quero, obrigado” ou trocando o abraço por um aperto de mão.

REFERÊNCIAS

ARGENTA ZANATTA, E.; MENEGAZZO, E.; NOEREMBERG GUIMARÃES, A.; FERRAZ, L.; CORSO DA MOTTA, M. da G. COTIDIANO DE FAMÍLIAS QUE CONVIVEM COM O AUTISMO INFANTIL. Revista Baiana de Enfermagem‏, [S. l.], v. 28, n. 3, 2014. DOI: 10.18471/rbe.v28i3.10451. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/enfermagem/article/view/10451. Acesso em: 8 jul. 2022. 

Learning about bodies and personal boundaries: autistic children. Raising Children, 2022. Disponível em: https://raisingchildren.net.au/autism/development/physical-development/bodies-boundaries. Acesso em: 8 jul. 2022.

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