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DESFRALDE E AUTISMO: ENTENDA COMO ACONTECE O PROCESSO

Não há regra específica quando falamos sobre o período certo para tirar a fralda dos filhos, pois cada criança tem seu momento, particularidades e pode reagir de uma forma diferente. Se o desfralde já é confuso para crianças típicas, não seria diferente para crianças atípicas, cujo desenvolvimento traz peculiaridades.

Veja, a seguir, alguns tópicos recorrentes em consultórios e nas conversas entre mães, pais e cuidadores de crianças com TEA, que sabem bem o quanto é difícil esse processo.

O desfralde na infância é um processo especial e muito particular. Há crianças que até conseguem desfraldar sozinhas, com muita facilidade; mas a maioria dependerá dos pais para criar uma rotina. Se para a família de crianças típicas este processo já é desafiador, para crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) há uma dose extra de dificuldade.

O primeiro passo a avaliar no processo de “despedida” das fraldas, é checar se a criança, no seu desenvolvimento, já está madura.

A criança típica começa a desfraldar, em geral, entre um 1 ano e 10 meses a 2 anos. Primeiramente vem o desfralde diurno, que ocorre entre 2 e 3 anos; o noturno vem em seguida.  

Já no autismo, com algumas exceções, o mais comum é alargar estes marcos. Para uma grande parcela de crianças com autismo (cerca de 70%) e a depender das características e do perfil do pequeno, o processo de desfralde não será simples. A facilidade não é a regra no autismo.

Outra questão a salientar é que NENHUMA CRIANÇA COM AUTISMO É IGUAL. Assim, os processos de desfraldes serão diferentes, de criança para criança. Nesse quesito, os profissionais que a acompanham precisam fazer uma boa avaliação, que detalhe por quais motivos o desfralde está sendo tão difícil.  

O DESFRALDE NO AUTISMO DEPENDE DE CINCO FATORES:

 Sempre que uma criança com autismo tiver problemas com desfralde, os pais e profissionais devem verificar se há algum (ou mais de um) dos fatores listados abaixo. Esses itens podem ocorrer de forma concomitante e, para que o êxito seja alcançado, todos devem ser trabalhados. Vejamos:

1 – COMPORTAMENTO:

 Crianças com autismo costumam ter hiperfoco e interesses restritos ou repetitivos. Na maioria dos casos, elas não terão interesse nenhum em banheiros, um ambiente que, para elas, não oferece nada de legal ou atrativo.

Outras têm medo de lugares fechados e pequenos, assim, a estrutura do ambiente acaba incomodando. A insistência na fralda também pode acontecer pela segurança que ela oferece para a criança; para ela, é tão fácil fazer suas necessidades na fralda, que não há motivos para buscar alternativas.

Também interferem as manias, rituais e comportamentos repetitivos. Assim, a tentativa de encaminhar a criança para o banheiro pode se tornar bastante complicada.

 2 – REGULARIDADE INTESTINAL:

Cerca de 30% das pessoas com TEA apresentam intestinos instáveis. Isso pode ocorrer por vários fatores, como a baixa ingestão de água, ressecamento das fezes, episódios de diarreia, intolerância à proteína do leite de vaca, à caseína ou glúten. Outras têm grande formação de gases e desarranjos intestinais, por diversos fatores que não favorecem a digestão adequada dos alimentos.

Crianças com muito ressecamento, usualmente sofrem para fazer cocô, porque lembram de outros episódios em que isso se tornou difícil e dolorido, resistindo a tentar mais vezes. Pela própria experiência com o intestino, ela vai acabar evitando o vaso sanitário.

3 – FATORES SENSORIAIS:

 As hipersensibilidades sensoriais podem atrapalhar bastante o processo e costumam se apresentar de diversas formas, como a sensibilidade AUDITIVA (medo do barulho da descarga); VISUAL (pode enxergar o vaso sanitário de uma forma assustadora, como se fosse muito fundo e pudesse cair lá dentro, imaginando possibilidades de uma forma inadequada); e TÁTIL (não tolera o frio do vaso sanitário ou respingos de água).

4 – CONDIÇÃO MOTORA:

 A falta de coordenação motora atinge a maioria das crianças com autismo. Portanto, a inabilidade para cumprir sequências e tarefas motoras também pode ocorrer naquelas que estão na fase do desfralde.

 Nesse contexto, usar o vaso sanitário é desafiador, porque requer habilidades de equilíbrio, postura e praxia motora, para se manter sentada de forma confortável, segura e tranquila.

5 – LINGUAGEM NÃO VERBAL:

 Quando não consegue falar, pode ser que a criança não consiga se expressar, nem compreender de forma tranquila, como é feito o treinamento para sair das fraldas e partir para o uso do vaso sanitário.

 Se seu filho tem dificuldade em falar, crie cartões com imagens para ele, para os quais ele possa apontar sempre que precisar fazer xixi ou cocô. O uso de acessórios na linguagem não verbal ajuda bastante.

DESFRALDE REQUER MUITA ANÁLISE

Como podemos ver, são muitas situações a considerar em cada caso específico, e é responsabilidade dos especialistas se debruçarem sobre cada uma delas, diante das queixas trazidas pela família.

 Neurologistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, equipe escolar, entre ouros, devem trabalhar em conjunto, estabelecendo um diálogo contínuo e efetivo. A multidisciplinaridade é necessária porque, em todos os lugares que a criança frequenta, pode ser que em algum ela esteja conseguindo avanços.

 Por exemplo, é provável que ela não dê sinais de interesse pelo uso do banheiro em casa, mas que na escola ou nas terapias ela já consiga usar o vaso algumas vezes, com tranquilidade. Assim, a troca de experiências favorecerá a todos os envolvidos.

 A regra geral é que, tudo que for feito para melhorar a qualidade de vida dessas crianças, deve ser realizado de forma gradual, com um passo a passo tranquilo, sem medo nem ojeriza, para que as coisas fluam sem que a criança construa um receio irracional.

O desfralde pode parecer uma coisa normal na vida de qualquer criança, mas para as que têm TEA, esta é uma nova exigência social. Apenas tentemos descomplicar este momento de adequação a uma nova convenção.

REFERÊNCIAS:

BRITES, Clay. Como desfraldar crianças com autismo. Instituto Neurosaber. Disponível em: https://institutoneurosaber.com.br/como-desfraldar-criancas-com-autismo/#:~:text=O%20desfralde%20no%20autismo%20pode,do%20desfralde%2C%20caso%20haja%20alguma

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